Autores Maranhenses e Paraenses
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   Escritores Maranhenses e Paraenses      O desaplauso da Amazônia
   Atualizado em 08/02/2016

O DESAPLAUSO DA AMAZÔNIA

 

Você voltou Amazônia?

 

— Voltei. Você me ouve e me deixa lisonjeada com suas atenções demoradas. É por isto que eu falo, falo, falo tanto que quase não consigo parar. Mas por favor, não pense em reprimir essa falação.

 

Fale tudo que vier na sua copa! Você é uma Amazônia adulta que carrega consigo a verossimilhança de que o seu genetlíaco ocorreu há muito mais de 500 anos. E eu estou achando que desta vez você vai falar das suas satisfações, pois o grande Estadista o homem da caneta de ouro, sinalizou que compreendeu suas decepções. Ele é o CARA! Imediatamente tomou medidas compensatórias para ressarcir o povo pelo petróleo perdido para a Petrobras. Ele procurou fazer o que ainda tem chance de executar com a caneta dourada. E ele estava quase de mãos dadas com esta Amazônia insatisfeita quando revelou a intenção a respeito do petróleo do pré-sal. E nas entrelinhas ele deixou perceber que parte da renda do pré-sal deve ser utilizada para distribuição humanitária e justa para o povo. E o projeto está caminhando para acontecer, já existe comissão do pré-sal, já houve conversas com governadores. E até alguns colunistas afirmaram categoricamente que o Estadista se espelhou no ex-presidente Getúlio Vargas. Não foi! Aquele nunca se preocupou em dividir nada com o povo! Este deixou implícito que pretende realizar um ato nobre e generoso. Foi através das suas palavras de insatisfação Amazônia que o Estadista deparou-se com a iluminada ideia do pré-sal e está se cercando de decisões acertadas para não roubarem novamente o petróleo do povo.

 

— Ah, sim eu percebi isto! Fiquei felicíssima com as declarações do nosso Estadista! Assisti de perto, não perdi uma das belíssimas e convincentes palavras dele!

 

Ah! Ótimo! Então o que está lhe incomodando? Você recebeu o recado que ele mandou para você? Colocou uma campanha publicitária em todos os canais de televisão informando que as forças armadas do país estão sempre de prontidão e que elas em conjunto praticam exercício mensalmente para ficar em forma com o intuito de defendê-la contra tudo e contra todos!

 

— Sim! Eu recebi o recado e tenho certeza que o resto do mundo também recebeu! Atualmente eu me sinto com as raízes mais fincadas! Sou a Amazônia mais feliz do mundo!

 

Então não precisamos continuar. Paramos aqui. Você não tem nada para reclamar!

 

— Eu estou desapontada com o ministro do meio ambiente ou eu deveria chamá-lo de: o xerife bobo da República! Eu acredito que o Estadista delegou para o valentão nomeado. Três missões. A primeira foi fazê-lo sorrir bastante. Provocar-lhe frouxos de riso. E esta ele cumpriu. Nunca antes na história desse país um Presidente da República gargalhou tanto no dia da posse do seu ministro por ele ter falado montanhas de besteiras antes de assumir. A segunda incumbência recebida era uma tarefa de certa complexidade. Liberações ambientais de questões que estavam atravancando o PAC, a retomada da construção de usinas nucleares, o plantio de transgênicos e desapropriações inconvenientes nas quais os desapropriadores — as empresas estatais — deixam de pagar as indenizações devidas para os antigos moradores: pessoas paupérrimas e desprotegidas que passarão a residir em favelas de pequenos povoados dos interiores. Eles serão vistos como relegados porque se negavam em concordar que tomassem suas propriedades para construírem novas usinas hidrelétricas. Aliás, este é um procedimento que eu condeno neste governo, quase não dá para acreditar como o grande Estadista fica de braços cruzados, vendo empresas que se beneficiaram das terras dos pobres coitados e continuam se beneficiando ganhando milhões de dólares. Ao mesmo tempo em que negam ressarcimentos irrisórios para famílias inteiras que se tornaram indigentes — no Maranhão e no Pará — por causa de homens inescrupulosos que se acham acima do bem e do mal. As licenças para que o PAC avançasse foram concedidas com a maior das competências! Excelente ministro! Com que tipo de argila ele foi moldado? O Oleiro que o moldou é dos bons?

 

Não são do meu conhecimento as respostas para as suas perguntas englobando a argila e o Oleiro. E até agora os feitos do ministro não o desabonam, tudo o que ele fez estava cumprindo ordem. E as coisas condenáveis e detestáveis ficaram apenas subentendidas!

 

— O terceiro encargo que o ministro recebeu. Ele não o levará a efeito simplesmente porque não conhece o que é floresta! Uma dessas televisões colocou no ar entrevista do homem da força em rede nacional. Apareceu a imagem de um descampado tendo como sequência uma área imensa de capoeira grossa. O local onde filmaram a reportagem deixou de ser floresta há pelo menos uns quinze anos. Aquilo não é a parte da Amazônia que deve ser defendida! Lutar por áreas que se apresentam ocupadas por juquiras brabas é o mesmo que chorar por leite derramado na areia! No entanto o ministro falou para o país inteiro, com emoção forçada, quase chorando “Um homem que faz uma coisa dessas com a floresta, merece morrer trabalhando no campo com uma bola de ferro amarrada no pé, prisioneiro para o resto da vida! Ele causou um prejuízo muito grande para a Amazônia e para o planeta!” Alguém precisa levar o ministro na Amazônia verdadeira, lá onde eu estou, para que ele possa aprender o que é floresta e que parte dela deve ser defendida! Eu fiquei com vergonha pelo vexame que o entrevistado passou e decidi que ele não merece o meu aplauso! O cargo de ministro obriga aprender que não se devem associar os fenômenos que afetam a Amazônia, como se eles também afetassem o planeta! Isto representa um sentimento de baixa autoestima. E os outros países ficam acreditando que eu sou deles tanto quanto do Brasil! É difícil detectar entre os estrangeiros e o ministro atacado de xerofilia quem entre eles está errado! Quantas babaquices se falam por aí em nome da minha defesa!  Foram estas pequeninas coisas que deslustraram o brilho da confiança que eu depositei no grande xerófilo quando ele assumiu! Desculpe meu escritor favorito, mas percebo em sua face uma expressão pouco definida! Decepção é isto? Desaprovação? Eu estou exagerando?

 

Digamos que seja um pouco de cada uma das coisas que você viu! Sua vontade de aplaudir é arbitrária, ouça a impulsividade que lhe fala de dentro para fora! E você está certa! O homem é mesmo xerofílico, ele destruiu 79 fornos de produzir carvão e arrasou a esperança e sustentação de aproximadamente 320 caboclos analfabetos, humildes e miseráveis que só sabem carvoejar. As condições de vida dos desgraçados, que trabalham no meio do nada onde não se planta nadica de nada, porque a região é esquecida pelo governo que deveria investir nela para existir emprego e produção de alimentos. Não interessa quando quem vai persegui-los, chega de caminhonete zerada, um excelente salário no final do mês, hospedagem em hotel cinco estrelas, acompanhado de policiais armados e tratores monstruosos, preparados para enfrentar corajosamente ou seria covardemente! Homens magrelos, mortos de fome e revestidos do medo e da fuligem do carvão! É muito fácil exercer a função de ministro executando atos covardes e injustos para aparentar que é atuante! Demolir fornos que estarão construídos uma semana depois! Proibir cortar árvores que serão cortadas na semana vindoura! Aplicar multa de duzentos mil reais que nunca serão pagos! Convidar a imprensa para presenciar a fiscalização de lugares ermos aonde jamais o ministro retornará! Ameaçar cadeia para fazendeiro que continuará solto! Este tipo de procedimento está relacionado com a cultura do povo brasileiro que trás entranhado na educação dele, a desvalorização do que possui e a necessidade de provar para os outros povos o que faz e o que deixa de fazer! E esta bravata aconteceu no meio da caatinga, local deserto em uma carvoaria no Piauí! No momento em que os magricelos trabalhavam parecendo bichos fuliginosos ávidos de ganharem por meio do suor de suas fadigas, a expectativa de estarem vivos subempregados e alimentando a família deles no próximo dia que eles pediram a Deus! Mas tudo o que eles viram, não queriam ver: equipamentos agrícolas que não estavam a serviço da agricultura; e uma figura magricela vestida com roupas limpas exalando um extrato barato e deixando bem claro que ele era o chefão e que não estava a serviço de Deus! Com cara de leso e o peito cheio de arrogância, ele ordenou a demolição para satisfação dele, do cameraman e do repórter.

 

— Agora eu senti medo! Porventura estou me lastimando com a pessoa errada! Nunca imaginei que você apoiasse o desmatamento da caatinga, para transformá-la em carvão! Eu sou definitivamente contra, não importa se quem desmata precisa do carvão para alimentar os familiares e ele próprio!

 

Não Amazônia, você não entendeu corretamente os meus pareceres! Eu reafirmo categoricamente que sou contra derrubadas que não são planejadas e as que não forem suprir necessidades alimentícias dos seus derrubadores. E condeno as que causam impactos ambientais! Mas não devemos esquecer nem por um breve momento, que a natureza está aí para ser utilizada inteligentemente pelo homem! E os que se acharem mais homens, mais donos da terra, mais ricos dos que os pobres que utilizam os recursos naturais. E até mesmo com o direito de conservar o que não é deles, proibir o que não deveria ser proibido, então eles devem pagar para prover a subsistência necessária dos que retiram o sustento da mãe natureza. Eu desaprovo a utilização da força, da estrutura do estado e as ações desprovidas de justiça e honestidade para com o homem simples! Tirar de um nordestino simplório a oportunidade de trabalhar com o único serviço que ele sabe fazer! É uma maldade que não tem tamanho! E se esse governo necessita manter as aparências de um país cuidadoso ou até mesmo se ele pretende engabelar a opinião internacional, quem terá que pagar o preço é o governo que aparece exercendo autoridade! E não o homem do campo possuidor de uma única habilidade da qual ele tira o seu provimento! Sim claro! Somos forçados admitir que os que carvoejam também são agricultores, mas a expensas de quem eles vão agricultar, se o sistema que os perseguem não lhes oferece uma única chance! E se o solo em que ele habita é árido e só produz árvores de pequeno porte da família das rubiáceas que fornecem madeira apropriada para lenha e carvão! Quem entre os ambientalistas de plantão tem a franqueza de desfeitear os que carvoejavam afirmando que eles deveriam morrer de fome, para que as insignificantes árvores fossem preservadas!   No caso destes 320 carvoeiros e de tantos quantos aparecerem mais, o governo precisaria assumir a responsabilidade para uma solução definitiva. O exibicionismo e o fanfarronismo mostrado para o mundo foi só um paliativo!   Diante da monstruosidade explícita, o monstro que exibiu robustez além da medida deveria revestir-se de conscientização humanitarista; e imediatamente iniciaria o pagamento de um salário mínimo, para cada um destes trabalhadores que ficou impedido de trabalhar por culpa da necessidade do repressor abominável.

 

— Dito de maneira tão seca direcionada no âmago da questão, eu sou outra Amazônia obrigada a recuar no meu modo de pensar, até um pouco antes da sua colocação. Espero que o grande Estadista veja com os seus olhos benevolentes e pare de cometer a tortura da fome em um povo fragilíssimo, que não tem ânimo para dizer em que parte do corpo está lhe doendo: o estômago! Neste acontecimento desagradável não houve crime ambiental? Nem mesmo o fazendeiro cometeu crime?

 

O episódio supracitado não deixa transparecer a existência de um fazendeiro! Existe o proprietário das terras improdutivas que resiste na região em condições quase idênticas com as dos carvoeiros. Em vez de ser ameaçado de prisão e multado, ele deveria ser contemplado com um projeto agrícola — fundamentado em amostras do solo e apontando o que poderia ser produzido na propriedade — fornecido pelo órgão competente do governo. E em seguida a oportunidade da liberação de um financiamento agrícola no valor estipulado no item financeiro do estudo!  As televisões anunciam insistentemente a quantia de 78 bilhões de reais para financiar a agricultura! O sacrifício da autorização do investimento para o pobre homem, oferecer emprego na comunidade dele e produzir alimentos não deveria ser doloroso, se este dinheiro não fosse direcionado todos os anos exclusivamente para as grandes empresas agropecuárias! Para os pequenos sobra o direito de tomar conhecimento da oferta do dinheiro, receber a recusa dos bancos, ficar sonhando em conseguir algum dia e bolar um jeito de fazer com que a terra inútil se torne sustentável! Geralmente o que ele consegue é dívida, prejuízo, multa e conviver com o perigo iminente de ir para a cadeia!

 

— Aparentemente você está com a razão! Não posso afiançá-lo no todo, pois eu não conheço aquele território que possui suas características diferentes das minhas! Mas, eu posso olhar para você e dizer que estou vendo um ambientalista?

 

Não, por favor, não veja em minha pessoa um desses Belarmino! Olhe com atenção e verá um admoestador malhando em ferro frio!

 

 

 

Autor:

EDVAN BRANDÃO

Licenciatura Plena em Língua Portuguesa;

Professor de: Português, Literatura e Redação;

Jornalista e Escritor Ficcionista;

E-mail: edvan.brandao@gmail.com

           edvan_brandao@hotmail.com

Cel: 91 98360 – 1718

Escrito em 01/2010.