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   Escritores Maranhenses e Paraenses      Cartão de crédito a praga plástica da classe média emergente
Atualizado em 02/2016

CARTÃO DE CRÉDITO: A PRAGA PLÁSTICA DA CLASSE MÉDIA EMERGENTE

 

Sim é isto mesmo! Esta é a classe embevecida, por ter deixado para trás os tempos das vacas magras, quando não conseguia comprar praticamente nada, apenas o mínimo de pouca comida para alimentar a família; o mínimo de uma ou duas peças de roupas novas por ano, para que não dissessem que andavam maltrapilhos; na maioria das vezes andavam a pé, nas datas especiais pegavam ônibus; possuíam o televisor antigo preto e branco, dormiam cedo, no escuro para economizar energia. Sofreram, padeceram, apanharam, foram humilhados, se esconderam envergonhados dos amigos bem sucedidos e praticaram a única coisa que a falta de dinheiro permitia: desejaram o que não poderiam ter durante todo o período de pobreza.

 

O país mudou, o povo perdeu a cabeça, acreditou em um torneiro mecânico e o elegeu para Presidente da República. Foi o suficiente, ele não era santo, mas trouxe com ele o milagre do progresso, não multiplicou os pães, mas chegou bem perto: o rico ficou mais rico, em alguns casos até milionário; a classe média ficou rica, os pobres felizes da vida se transformaram em classe média emergente.

 

Pronto! As preces foram ouvidas, eles conseguiram empregos, ganharam dinheiro. Danaram-se a comprar tudo o que antes apenas desejavam. Tornaram-se classe média emergente e junto com a mudança de classe chegou às mãos deles os cartões de créditos (as pragas plásticas PP). O que antes era inalcançável passou a ser oferecido com a facilidade do queijo da ratoeira. Como se as empresas estrangeiras e as nacionais (ambas comprometidas na arrecadação dos montantes dos juros indevidos) donas das PP dissessem para os coitados que deixaram de ser pobres “Tomem os cartões, talvez tirem proveitos deles, mas provavelmente se enforcarão e nos sustentarão com o suor dos seus rostos e com suas privações durante muitos anos da vida de endinheirados sem prática de lidar com dinheiro”.

 

No meio da anarquia do mundo financeiro, com os juros mais caros do mundo foi desenhado e transformado em realidade o melhor dos ramos para as empresas de créditos ganharem lucros astronômicos, sem precisarem conceder empréstimos equivalentes aos ganhos auferidos: o dinheiro de plástico.

 

Esta classe sofredora está sendo assaltada por serem ingênuos em suas relações com a PP, pois demora descobrir os juros que lhe são cobrados: juros para financiamento 453% ao ano e 14% ao mês, juros para saques realizados 560% ao ano e 14% ao mês e cada mês de atraso os juros se acumulam sobre juros. ATENÇÃO! É aí que começa o assalto, pelo fato do cliente não dispor do dinheiro em espécie. Pois ingenuamente ele se deixou levar pela emoção, alegria e felicidade de finalmente possuir uma PP, não vai conseguir pagar a primeira fatura e terá que pagar todo mês 14% de juros do valor da compra efetuada no seu primeiro mês de PP, que não será amortizada nem um centavo e todo mês ela aumentará e se tornará impagável.

 

O tolo do cliente então será obrigado a tirar a comida da boca dos seus filhos (aqui ele começou a entrar no processo das privações), 453% de juros durante anos. Atentem que a PP nunca mais emprestou nem um centavo para o pobre desgraçado que passará anos tirando a comida da boca dos seus filhos para pagar uma divida que ele não deve. O valor concedido como crédito, jamais, em tempo algum, será correspondente com a proporção do valor pago de juros pelo miserável, que foi ingênuo em acreditar que o novo país próspero mantivesse um controle honesto e justo para o sistema financeiro.

 

Os milionários, os ricos e a classe média não passam por esta dificuldade, primeiro por terem dinheiro e segundo porque já aprenderam a lidar com a PP. É por isto que esta situação perdura, os poderosos são milionários ou ricos e eles não concordam em exterminar galinhas de ovos de ouro.

 

Estes percentuais de juros, a permissão para serem cobrados e o impedimento da evolução financeira da classe emergente, são os absurdos dos absurdos, ou então eles são na verdade meios de arrecadação de dinheiro fácil, que ajudará lá na ponta, alguma sumidade que está se lixando, se milhares de pais de famílias estão se privando de suas necessidades básicas. Para poderem pagar juros exorbitantes para as PP que não disponibilizaram empréstimos equivalentes as cobranças injustas e arbitrárias.

 

E os administradores das PP são tão poderosos que pleitearam e conseguiram a mudança do percentual mínimo de 10% que antes era cobrado na fatura, para o percentual mínimo de 15% que são cobrados atualmente no aviso de cobrança. Os 10% cobrados anteriormente causava prejuízo para as PP, considerando que os juros foram reajustados para 14% mensais, as PP deixavam de arrecadar todos os meses 4% dos juros cobrados que eram acumulados junto com os juros sobre juros e isto era um desperdício de arrecadação do dinheiro conquistado indevidamente, que as PP não poderiam concordar de maneira alguma. As PP foram atendidas imediatamente, porém, o reajuste foi disfarçado de medida para ajudar os clientes das PP. Mas ajudar de que maneira, se o mínimo pago é apenas o valor dos juros mensais! Simplesmente não dá para entender os motivos pelos quais os donos das grandes decisões se fazem parecer ingênuos!

 

O financiamento de um bem durável, um automóvel, por exemplo, a financeira investe no valor do carro, financia em cinco anos em prestações fixas que são cobradas aproximadamente um pouco mais, um pouco menos do dobro do valor do veículo, ou seja, 100% de juros pelo prazo de cinco anos!

 

Que se acuse o controversista da vez, mas esta situação de criticar o estado, não é de hoje, é de muito tempo atrás, quando ainda eram os reis que reinavam.

 

Cada época com as suas lamentações em defesa do povo. Agora se lamenta as PP.

 

Em 1572 Camões publicou Os Lusíadas para cantar as conquistas dos Portugueses, as glórias dos navegadores, ou seja, a história de Portugal. E no CANTO IV nas estrofes 95 e 97 através do episódio do Velho do Restelo, o poeta criticou as navegações, mostrou que o povo não percebia os lucros, ainda que fossem eles que navegassem e morressem, mas quem lucrava era o rei e a burguesia.

 

Leia duas estrofes com a escrita conservada de forma arcaica para acompanhar a rima do poema.

 

Estrofe 95

 

Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos Fama

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C’uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldade neles experimentas!

 

Estrofe 97

 

A que novos desastres determinas

de levar estes Reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas,

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos e de minas

De ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? Que histórias?

Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

 

 

 

 

Autor:

EDVAN BRANDÃO

Licenciatura Plena em Língua Portuguesa;

Professor de: Português, Literatura e Redação;

Jornalista e Escritor Ficcionista;

E-mail: edvan.brandao@gmail.com

           edvan_brandao@hotmail.com

Cel: 91 98360 – 1718

Escrito em 04/2011.