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   Escritores Maranhenses e Paraenses      A democracia molda sem o calor do forno
   Atualizado na sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A DEMOCRACIA MOLDA SEM O CALOR DO FORNO


Em um dia qualquer, não lembro exatamente de que dia estou falando. Sei com precisão, que eu praticava a minha caminhada matinal, não, não se tratava de um exercício praticado por livre e espontânea vontade. Fui praticá-lo depois de trinta minutos de briga com o sono e a cama, os dois insistentemente me puxavam para que eu não saísse do quarto. Quase me arrisco a dizer que não dei tapa nos dois, porque tinha certeza que me encontraria com eles novamente no final do dia; e eu não queria que o próximo encontro sofresse nenhuma perturbação: brigar com eles na hora de levantar era ótimo, excelente, mas em má hora, nem pensar! Coloquei os pés para caminhar na marra, deixei que eles ouvissem a minha consciência que os repreendia aos berros “Necessariamente vocês precisam criar resistência nas solas, flexibilidade em suas articulações para carregarem esse gordo para cima e para baixo, se não fizerem esse esforço, ele morrerá e os arrastará com ele para a tumba!” Para os meus pés, a repreensão foi um santo remédio, o passeio fluiu que foi uma beleza. Quando passei em frente de certa universidade observei que milhares de pessoas aguardavam o horário determinado para entrarem e prestarem exame para um concurso público. Enxerguei um pouco afastada da multidão, uma folha de papel que planava ao léu. Ela estava limpa e escrita com letras garrafais que diziam:


Um ensaio “Eu reconheço a culpa por minha própria culpa!”.


O que presenciamos hoje no solo deste país maravilhoso é a constatação de uma democracia que se fosse comparada com a força, ela seria a força das forças; com o poder: seria o poder dos poderes. Nada se iguala aos toques de magias que ela executa nas vidas de homens e mulheres, com pouca cultura, sem especialização em coisa alguma e formados em nada. Ah, antes que caia no esquecimento: eles e elas se tornaram especialistas em campanhas políticas. Tão afinados com o mentir, discursar, prometer o imponderável, que acabaram se elegendo. Tomaram posse na prefeitura, no governo, na câmara, no senado e até na presidência. Aqueles e aquelas, que antes não tinham emprego por falta de competência, se transformaram depois de eleitos e empossados em cargos incompatíveis com a inteligência de cada um deles ou delas, protegidos debaixo das asas da democracia, se revelaram aptos para executarem qualquer função que lhes fossem obsequiadas por prerrogativas e que caíssem em seus colos via paraquedas. É uma coisa de louco: aqueles que não sabiam nada, de repente ficaram sabendo de tudo. Alguns entre eles, que jamais escreveram um bilhete para elogiar ou criticar, apareceram como relator ou secretário. Outros que nunca entenderam a leitura da conta de luz da casa deles foram guinados ao ministério que cuida da energia, artifício para fazerem com que os suplentes assumissem sem as devidas autorizações do povo, as cadeiras deixadas vazias. E algumas entre elas, que nunca distinguiram de perto ao menos um bosque bem afeiçoado ganham forças na pasta do meio ambiente, não importa se são frágeis parecidas com varas verdes, que em um passado recente só tenham mandado nos limites de suas casas, passam a mandar na maior floresta do mundo! Que contrassenso! Só mesmo a força das forças, o poder dos poderes executa tamanho milagre. Ela pode e provoca esperança e mudanças radicais. Transformou em Presidente da República, um torneiro mecânico que esperou por mais de vinte anos. Ah, mas esta transformação valeu! Ele fez o que dezenas de presidentes antes dele jamais fizeram. Pagou para o FMI bilhões de dólares por uma dívida pública que parecia nunca ter fim. Matou a fome de milhões de pessoas que antes padeciam de inanição. Aprendeu a decorar discurso, lidar com política exterior, comercial, de rendas, econômica, fiscal e monetária. Os olhos do mundo olharam para ele e viram um estadista. E ele virou sem querer virar, a voz que fala mais alto sobre bilhões de reais disponíveis para investir aqui, ali e acolá. Democracia, coração de mãe que ninguém ausculta; e é por isso que ela protege os bons e os maus. Porém, nada de nefasto paira sobre o presidente incomparável, quer dizer, existe uma coisa ruim: ele não poderá candidatar-se para o terceiro mandato. Caramba! Mas fazer o quê? É a lei! Ele bem que poderia cumprir mais uns dois mandatos ou até mesmo ser chamado de Rei dos Esquecidos! Claro que poderia! Fomos nós que votamos nele! E se levarmos em consideração, que o Falcão foi chamado de Rei de Roma sem ter feito um por cento do que o nosso Presidente fez! Então a sugestão deixa de ser esdrúxula, ainda que pareça. Um Rei — em um país feito de mistura de raças — com o nome de um molusco cefalópode, corpo alongado, provido de dez tentáculos com ventosas, um dos quais é mais curto e entroncado. Causaria um impacto inimaginável no resto do mundo e um convencimento imaginável para os pernambucanos porque transformaria Pernambuco em berço da nobreza.


Ah, democracia! Tu me pareces faca com dois gumes! É assim que vejo a minha pretensão de ser um homem honesto e crítico. Por favor, pretensiosa intenção deixa-me de lado, esquece-me! Não sabes que faço parte dos olvidados! Como é que é democracia! Tu me perguntas se eu não tenho medo de perder o meu emprego? Não! Eu não tenho nem um pouco de temor! Eu sou um sujeito intocável, ninguém mexe comigo! Ah, não sabias! Então ficas sabendo: participo da estrondosa estatística dos milhões de desempregados! Sim, eu já trabalhei antes. Desisti do cargo para o qual fui nomeado, porque me recusei fazer parte de falcatruas. Amigos! Não, eu não tenho amigos, eles sumiram coincidentemente na mesma época em que perdi o meu trabalho. Não tive a sorte e não concordo com o que o Vinícius de Moraes disse “Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.” Vinícius certamente nunca enfrentou dificuldades financeiras. Se amigos fossem coisas que prestassem, eles perduravam na riqueza e na pobreza; na saúde e na doença. Amigos e esposas interesseiras se alimentam do mesmo manjar: situação financeira. E no meu caso, a percepção deles foi tão aguçada, que perceberam antes de mim, que eu estava quebrado. Aí está democracia, não tenho esposa e nem amigos. Não, não é nada disso, minha bendita e louvável democracia, pelo contrário, tens ajudado milhares de pessoas que voltaram a trabalhar, a comer, a conseguir novos amigos e novas esposas; a comprarem suas casas, seus terrenos, a reformarem seus lares; aposentados e funcionários públicos puderam adquirir empréstimos! A tua força é incalculável, o efeito dela não me alcançou, mas eu não perco a esperança. Amanhã mesmo prestarei mais um concurso e vou acreditando que ele seja tão sério quanto o homem simples que transformaste em Estadista. Admiro tua maleabilidade democrática, mas não consigo te chamar de amiga.


Autor:

EDVAN BRANDÃO

Licenciatura Plena em Língua Portuguesa;

Professor de: Português, Literatura e Redação;

Jornalista e Escritor Ficcionista;

E-mail: edvan.brandao@gmail.com

           edvan_brandao@hotmail.com

Cel: 91 98360 – 1718

Escrito no Sábado, 26 de dezembro de 2009.