Autores Maranhenses e Paraenses
A criatividade fala mais alto: valorização & divulgação das duas regiões
   Escritores Maranhenses e Paraenses      A Borboleta preta do Machado de Assis
Atualizado quinta-feiral, 4 de fevereiro de 2016

A BORBOLETA PRETA DO MACHADO DE ASSIS.


A excelência de um livro apresenta-se da mesma forma como foi escrito: aos poucos.


Vejamos um pouco de MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS.

CAP. XXXI — A BORBOLETA PRETA

10ª edição ed. ática— 1984


No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, sai do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.


Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.


— Também por que diabo não era ela azul? Disse comigo.


E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela sairá do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha Janela entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: "Este é provavelmente o inventor das borboletas." A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.


Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as providas formigas... Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.

 

 

A ESSÊNCIA DO TEXTO ACARICIA A ALMA DO LEITOR QUE ADMIRA A ARTE DA ESCRITA, A BELEZA DO ENTENDIMENTO E A GRANDEZA DO AUTOR.


Muito já foi dito a respeito da obra do Machado de Assis; e todos os que se propuseram a dizer alguma coisa precisaram — uns por brilhantismo e outros por vaidade — recorrer lá no fundo dos seus conhecimentos. Escarafunchando as mais difíceis das expressões e a quase intermináveis pesquisas através do tempo na ânsia de declarar para o mundo quais os autores preferidos e escolhidos como modelos pelo romancista que escreveu com a alma, o que ele pôde tirar dela sem dilacerá-la.


E logo ele que carregava dentro dele a humildade em forma de descrença quando disse com a voz do Brás Cubas “(...) o que não admira se este livro não tiver dez leitores. Dez? Talvez cinco.” A preocupação que o gênio vivenciava não era o sucesso e sim o número de capítulos que ele precisava entregar para a revista no dia certo que ela seria mandada para as oficinas. E por causa desta necessidade imediata de cada exemplar da “Revista Brasileira” ele desdobrou-se brilhantemente no papel do morto enterrado e já comido pelos vermes, mas não um cadavérico qualquer! Esmerou-se para apresentar um cadáver carcomido, cheio de consideração com o devorador de defunto — habitante alojado arbitrariamente dentro da sua última morada — que o corroeu antes que outro esfomeado o fizesse em sua frente.


Diante de uma genialidade incontestável fica fácil afirmar a beleza singela de A BORBOLETA PRETA! Sim! É disto que eu vou falar e não da obra como um todo! Não vou pesar e muito menos considerar o que já se fartaram de alardearem no círculo literário e fora dele: o pessimismo machadiano não se curva diante de nenhuma justificativa racional.


É mais importante mostrar a magnitude do texto escrito de forma esplendorosa — mesmo com prazo para terminar — criando a expectativa e o interesse nos leitores que não eram dele, mas que de repente poderiam transformar-se em seus. Com a mesma importância dos que no presente já o leram, consequentemente os que ainda não e os que voltarão a ler porque na primeira leitura não entenderam! Ele teve a dedicação extravagante na forma de escrever, transformando cada um dos seus capítulos em praticamente uma história completa era como se ele visualizasse a necessidade de deixar o leitor farto, satisfeito com o que lera e sem o sentimento da exigência de ler o próximo número da revista para poder entender! Não isso não! Ele não queria o leitor atrelado ao seu texto com a percepção da obrigação de continuar lendo por falta de compreensão do que já havia lido. Esta visão dele foi mostrada o tempo todo e no capítulo V ele fez questão de apontar o dedo para o detalhe: conta como se deu a doença e o dia que ele morreu sexta-feira, um dia de mau agouro. E fez questão de reafirmar o que ele apontava revelou as primeiras informações de quem conservara até ali no anonimato: disse que a anônima tinha 54 anos e que no passado foram apaixonados. De propósito encerrou com uma frase inadequada para o final que vinha contando: “vejo-a assomar à porta da alcova...” E propositalmente iniciou o capítulo VI, agora sim! Com a frase adequada para iniciar o que contaria com a aparência de uma nova história, porém, não passava da continuação da velha história bem contada: “vejo-a assomar à porta da alcova (...).” E deu de bandeja o desvelamento do segredo mantido em um compartimento do esquecimento do defunto e do leitor “O que por agora importa saber é que Virgília — chamava-se Virgília — entrou na alcova (...)”.


A morte da BORBOLETA PRETA foi utilizada como afirmação da crueldade do herói machadiano impregnado da fedentina do sepulcro, Brás Cubas. Mas para Machado o significado não foi este! Ele quis mostrar com sutileza — embora não padecesse de segregacionismo — a existência do racismo na cabeça dos brancos que se achavam superiores donos de ar divino e de estatura colossal. Ele só matou a BORBOLETA PRETA, ela “era negra como a noite” porque não era azul e com a zombaria dos mestres não feridos o personagem deixa exposto no bojo do ato criminoso comparações visível como na vida real. O assassino cruel sentiu por alguns momentos remorso por seus instintos perversos acompanhados pelo repelão dos seus nervos. E levado pela comichão dos dedos e pelo preconceito diante da cor da BORBOLETA, ele perdeu o controle e despachou o cadáver para a grama do jardim utilizando um desrespeitoso piparote. Logo em seguida a inquietação pelo crime cometido foi apagada da intenção do racista; e ele preferiu assumir a sua ideia de antes: “creio que para ela era melhor ter nascido azul”. No final desta página Machado de Assis, brilhantemente dá por encerrada a sua claríssima intenção de protesto com uma frase que não foi dita, mas ficou implícita. O final da BORBOLETA PRETA originariamente deveria ter atravessado o tempo escrita assim: creio que para ela era melhor ter nascido azul, pois qualquer coisa relacionada com preto me repugna!

 

O Machado que não cortava, mas escrevia com brilhantismo brincou com a compreensibilidade das elites escravocratas oitocentistas, no passado lá atrás quando escreveu no capítulo XXXII “desço, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o capítulo passado é apenas uma sensaboria ou se chega à empulhação...”. Ele se referiu a BORBOLETA PRETA foi como se tivesse dito: eles não perceberão o meu desgosto embutido, no máximo enxergarão tapeação! E aproveitou para devolver a eles “a gente frívola não achará nele o seu romance usual” o piparote aplicado na BORBOLETA PRETA “se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus”.

 


Autor:

EDVAN BRANDÃO

Licenciatura Plena em Língua Portuguesa;

Professor de: Português, Literatura e Redação;

Jornalista e Escritor Ficcionista;

E-mail: edvan.brandao@gmail.com

           edvan_brandao@hotmail.com

Cel: 91 98360 – 1718

Escrito no Sábado, 26 de dezembro de 2009.

Escrito na Quarta-feira 22 de julho de 2009.